quarta-feira, 6 de abril de 2011

A rua diz


O espaço urbano, com tudo o que nele se apresenta e com tudo o que dele se esconde, é a síntese da sociedade. O que se vê nos locais públicos (e o que raramente neles se encontra) diz muito sobre a qualidade de vida e sobre os preconceitos em uma região. 

O que se conclui ao visitar um lugar cujas ruas estão repletas de mendigos, de bêbados, de narcotraficantes, de crianças devotadas às drogas e à prostituição?

Que juízo fazer de uma região onde as mulheres são proibidas de frequentar praças, mercados, restaurantes, enfim, o espaço público em geral? Onde elas vivem encarceradas em suas casas? Onde não se vê uma só mulher andando nas ruas? 

É possível perceber o baixo IDH de uma cidade quando deficientes físicos e mentais não são vistos nos espaços públicos. Quando não estão nas empresas, não trabalham em lojas nem vendem remédios nas farmácias... Ainda existem pessoas com necessidades especiais condenadas a uma vida exclusivamente doméstica, lhes sendo negado o acesso aos trabalhos externos.

Da mesma maneira, o que se pensa ao perceber que, numa sociedade na qual a maioria das pessoas tem pele escura, pouquíssimos “negros”, “pardos” e afins frequentam as universidades? 

Em dado país, há mais botecos do que bibliotecas — esse não é um dado relevante, que ajuda a medir o desenvolvimento dessa nação?

A escassez de certos fatores e a abundância de outros dentro do espaço público têm muito a dizer sobre a sociedade.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Não aglutinados


Meninos descalços jogam bola em meio à poeira. Com pedrinhas, criam as traves. O esgoto descoberto lhes serve de linha lateral. O áspero asfalto, de gramado. A cidade onde vivem supera duas centenas de milhares de habitantes. Mas o bairro é periférico. Eles não esperam receber do secretário de esportes uma quadra coberta ou um verdadeiro campo de futebol. Bem que gostariam de ter um espaço designado exclusivamente para o esporte, com balizas branquinhas, cujas redes estufariam após marcarem gols. Mas, não tendo tal espaço, os meninos ainda usam pedrinhas. Ainda jogam no abrasante asfalto, que dividem com carros, ônibus, motos, carroças, bicicletas...
         Não é incomum o fato de que esses meninos nada esperam do secretário municipal de esporte. Na verdade, mesmo as pessoas de classes econômicas mais abastadas não contam com o trabalho dele.
         Meninos, jovens e adultos frequentam academias, clubes esportivos, aulas de natação ou de dança particulares se tiverem recursos financeiros para isso. A quem não os tem, só resta improvisar.
         É assim que funciona. Por essa razão, as classes “médias” e “altas” não costumam protestar em favor de obras públicas que promovam o esporte. Quando elas precisam de quadras de futsal, academia, áreas de lazer, elas pagam por isso.
         Pagam por algo que deveria ser gratuito, algo que o governo deveria dar à sociedade. Não é esse um dos direitos dos cidadãos?
         Durante a História do Brasil, o poder público não se mostrou um elemento aglutinante da sociedade, algo que juntasse pessoas de diferentes “classes sociais” na missão de planejar os espaços públicos, resgatar cidadãos da pobreza e “fortalecer a economia”. Não existe tradição de planejamento urbano, especialmente na região periférica e em favelas. Casas são construídas sem o consentimento de autoridades. Ruas e lojas acompanham essas precárias expansões urbanas.
         Em propaganda eleitoral, quando se quer enfatizar o perfil de gestor público de um candidato, a imagem o mostra olhando um mapa e discutindo a obra com os engenheiros e equipe. Tomando tal símbolo por medida, pode-se dizer que a população não se sente parte da equipe, ela não costuma ser chamada a construir a cidade junto aos seus governantes.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Racionalização

Sou o REBELDE de meus IDEAIS. Quero ser um homem mais organizado, mais dinâmico, com mais “conteúdo”. Alguém que aproveite as boas oportunidades da vida para amar e ser feliz. Desejo fazer várias tarefas que enobreçam minha existência e me ajudem a progredir moral e intelectualmente. Nos dias que antecedem o início das aulas, por exemplo, digo a mim mesmo que vou dormir mais cedo, acordar mais cedo, arrumar antecipadamente meus afazeres universitários e sociais. Nos primeiros dias, tenho êxito. Depois eu deixo a rotina trazer de volta meus maus hábitos.
Ontem eu pensei em ligar hoje para algum técnico em informática. Hoje eu deixei o tempo passar e achei por bem ligar para um técnico amanhã. Exatamente! Após gastar o tempo sem fazer nada, pensei que já não havia mais tempo para ser atendido por um técnico hoje. “Por isso” —justifiquei para mim mesmo— “só vou ligar para um técnico amanhã”. A verdade é que se eu já estivesse estudando, eu diria a mim mesmo “Não posso fazer isso agora. É muito estudo e pouco tempo. Quando chegar o período de férias eu ligo para um técnico”. Acontece que ainda estou em férias! Essas justificativas incoerentes que dou à minha consciência tem um nome específico. Veja as palavras do Dicionário Houaiss:
      racionalização     Datação: 1899

  n substantivo feminino
  (...)
3     Rubrica: psicanálise.
processo de caráter defensivo pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou moralmente aceitável para atos, ideias ou sentimentos cujos motivos verdadeiros não percebe

                                           (Fonte: Dicionário Houaiss da língua portuguesa 3.0)

Isso mesmo! A palavra é “racionalização” (mas pode chamar de “autodesculpa esfarrapada”). Os seres humanos em geral são (ou somos) frequentemente alvo das próprias racionalizações, que costumam ser muito visíveis nas testas alheias, mas que em nós mesmos estão quase imperceptíveis, camufladas em nossos vícios particulares. Os que dizem não padecer desse mal são repetidas vezes os pacientes em estado mais grave. Esses nem suspeitam dos próprios maus hábitos e quase sempre sofrem de certa arrogância.  

Há pessoas que se lastimam assim: “Eu queria fazer dieta, mas não consigo”, “Eu queria estudar mais, mas sou burro”, “Eu queria parar de fumar, mas não adiantará”, e por aí vai... Deixando à parte o problema das drogas (o fumo é uma delas), pois este é um complexo capítulo à parte, podemos dizer que o desejo de reformar-se está apenas na boca dessas pessoas.

Esse desejo quando expresso no pretérito imperfeito nada mais é que autodesculpa esfarrapada. O “eu queria...” é uma racionalização.

Hoje, quando eu disse à minha consciência que era tarde demais para ligar para um técnico de informática e que ligarei amanhã, só estava me deixando levar por uma atitude viciosa, que prejudica meu projeto de vida. Tanto isso é verdade que evitei escrever em minha agenda “Ligar para a assistência amanhã”, pois se tivesse feito tal anotação, ela ficaria martelando em minha cabeça. Até quando continuarei adiando, e adiando, e adiando?

Devo ter certeza que esse é um vício meu e eu devo combatê-lo, posso vencê-lo e minha vitória sobre ele depende apenas de minha vontade. Ah! E não posso me esquecer de usar mais a agenda e de programar a minha vida. Devo reformar-me, arrumar este meu caos. Só assim vencerei essa minha “autodesculpa esfarrapada”.

E você? Acaso tem agora racionalização a ser apagada de sua vida? Qual? Comente!





sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sereno


O soluço do lago após o cair da brita,

A água emerge à margem sonolenta,

Súbito círculo aquático a se expandir,

Mas logo o lago será sóbrio e ledo novamente.



Enche-me de paz, quem contra mim grita.

Não me rouba o sossego, a turba violenta.

Quem quer me apequenar só me faz subir.

E logo lépido, lírico e límpido, seguirei em frente...



A brisa embala a folha morta num acalento...

O vento macio que canta sobre meu ouvido...

Tudo faz lembrar a serenidade da nascente...

Tudo tranquiliza, mesmo diante da serpente...

Não desequilibrar ante o logro do estampido...

Ter paz interior, ainda que haja um atroz tormento...



Nada me perturba, nem a turba turva. Nem a turba turva......




 

domingo, 19 de setembro de 2010

Balada do Pecado e da Redenção





O erro recorrente persegue
Corre, pula sobre mim,
Aproveita-se de minha fraqueza
E, soturno, suga-me o sangue


Essa parece ser uma fuga sem fim
Por mais que eu corra,
Por mais que eu fuja,
O erro vem atrás de mim,
Derruba-me,
Extirpa a seiva da vida
Satisfeito, levanta-se, espia-me


O pecado me vê levantar
Caminho cambaleante por átimos
Começo a caminhar com maior desenvoltura
O pecado sutilmente marcha em minha procura,
Sem nunca ter me perdido de vista


Ouço passos a seguir os meus
Apresso os passos, seus passos se apressam
Temeroso olho para trás. Quem será?
Faço sempre como se tivera dele me esquecido
Como se já não me acostumara a ser seu alvo


Eis que vejo a face funesta do erro
Ele me sorri sarcástico
"Sou eu novamente, velho amigo!"
"Vim provar teu pão com geleia"
Aí eu corro, aí eu corro, corro feito louco,
Louco e desesperadamente corro, e louco, corro
Eis que o pecado me insta:
"Fique aqui! Não há porque fugir!"
"Mais cedo ou mais tarde eu vou te atingir"
"Não adianta correr. Suas pernas se cansarão"
"Eis-me aqui, que nunca me canso de te seguir"
"Eis-me aqui, sua eterna, e terna, assombração"


Pede para que eu não sinta vergonha dele
Nem "de mim", nem "de nós, que somos um"
Por instantes me paraliso. Ele se aproxima.
"Eu te conheço", sorri, triunfante,
"Sempre voltas aos braços de teu erro"
"Ó, pequeno infante, sabes, não adianta resistir"
Sua língua ofídia se contorce entre os caninos
Delgados dedos. Delgados, pálidos e mortos...
Suas fúnebres falanges buscam meus ombros
Como as mãos da morte puxam dos escombros
A fugacidade dos prazeres mundanos, estoicos,
Resignados à "indelével" fraqueza humana,
À "inescapável" imperfeição do ser


Eis que, de súbito, cintila brilho novo em olho meu
Não irei me entregar à sordidez da sombra pecadora
Não darei ouvidos ao torpe vício que me persegue
A mentira é sua única arma, a ilusão é sua única isca
O erro quer me vencer pelo meu cansaço
Se eu me conformar com a desilusão, ele vencerá
E eis que a desilusão é a maior das ilusões
E eis que o conformismo é o mais terrível dos logros


--Afasta-se, infâmia! Não me curvarei à tua persuasão!
Irás se cansar, eu me livrarei de tua torpe perturbação
Não mais ouvirei teu veneno, tolo, pútrido e abjeto erro,
Tu és mero fantoche da morte, nada tens de sagaz
És um vulto obtuso, um parvo zumbi e não me assustas mais
Não é difícil viver sem ti, não és indispensável a ninguém
Saia daqui corado de vergonha e lembrando-se de quem,
Não sem motivos, renegou-te, solenemente, ao desterro!

domingo, 15 de agosto de 2010

Ninguém viu o que eu vi





"Evoquei as multidões que se agitaram e viveram nesses lugares: vi-as desfilar, diante do meu pensamento, com as paixões que as consumiram, com seus ódios, seus amores e suas ambições desvanecidas, com seus triunfos e reveses – fumaças dissipadas pelo sopro dos tempos. Vi os soberanos, chefes de impérios, tiranos ou heróis, cujos nomes foram celebrados pelos fastos da História, mas que o futuro esquecerá". (Léon Denis)¹

 
Ninguém viu o que eu vi...
Os que viram, não lembram mais;
Os que lembram, não estão aqui;


Ó, doce aurora das experiências!
Infância meiga, de paz e liberdade,
Teu alvo âmago da terna mocidade
É resquício de ignotas vivências!


Mesmo que só por intuição,
Vislumbro as ações do passado...
É o pretérito que se faz presente,
Mostrando-me o caminho andado


Quem eu era antes de ser quem sou?
Em minha antiga face, quem era eu?
Meus andrajos, quem os enterrou?
Meus olhos, quando a terra comeu?


E comeu.
E comeu...
E comeu...


Contemplei o espetáculo das revoluções
Vi o nascer e o morrer de cem gerações
Testemunhei a marcha dos belicistas,
A resistência dos pacifistas,
Ouvi o mutismo sepulcral...


Ninguém viu o que eu vi,
Os que viram, não lembram mais;
Os que lembram, não estão aqui;


Escutei um sábio falar de amor
Nosso mestre ensinava o perdão,
A caridade, ato prático da oração,
Congregava os espíritos fraternais


Mas nem tudo era belo e honesto...
Terríveis carnificinas na Antiguidade!
Mil corpos e uma legião de abutres...
E quantas estamentais iniquidades!


O sangue ungia o campo de batalha
E viúvas rezavam pelos seus mortos
A valentia usava uma rubra mortalha
Dos pós, renascíamos noutros corpos


Ah, mas como posso descrever se...
...Ninguém viu o que eu vi,
Os que viram, não lembram mais;
Os que lembram, não estão aqui?!


A repressão se camuflava de virtude
O honroso era taxado de "vergonha"
Pessoas mortas em fogueira medonha
Paradoxo da fé que assassina amiúde


Mas como ir ao Pai se não pela Paz?
Como fruir o Amor sem ter Fraternidade?
E como ser livre se não pela misericórdia?


Desejo a leveza do pólen,
Quero flutuar numa brisa,


Desejo o fulgor da chama,
Quero a rutilância ígnea,


Ser crepitação operativa!
Ser semente a semear!


Ainda não vi o que eles viram
O que eles viram, eu verei já


E verei.
E verei...
E verei...


Quando meu tempo chegar...


¹ Citação retirada da obra "Depois da Morte"

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Acontece...


Rimei "amor" com "dor" no último post! Aaaaaahhhhhh!!!!!!
Qual é o sentido de "toda e qualquer"?
"Alegre canto" em oposição a "triste pranto"?
Ai, ai, ai...