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quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Montanha do Bem


  

  Ao contrário do que ocorre nas escaladas materiais, a ascensão na Montanha do Bem nos traz ares menos rarefeitos.

  Quanto mais subimos o monte das bem-aventuranças, mais nos afastamos das feras carnívoras da planície, símbolo da animalidade que subsiste na alma, e mais perto ficamos das coloridas aves do paraíso, emblema da liberdade fruída pelos espíritos puros.

  Ah! As atmosferas superiores são mais puras e livres! A alma viaja pelo infinito como o pássaro risca o céu.

  A planície, com sua floresta densa, fechada e sombria, representa a pouca clareza de ideias dos espíritos ainda pouco experientes. Mas os níveis superiores do morro recompensam o viajante com iluminado jardim de árvores frutíferas.

  Quanto mais subimos, mais bela é a vista e melhor ideia fazemos do conjunto. Percebemos, então, que deixamos o obscuro arvoredo da planície, rumo ao pomar de delícias, localizado no topo da montanha.

  Escalar essa formação rochosa não é tarefa das mais simples. São muitos os calos a nos dar prova da aspereza do trajeto. Mas contamos com a colaboração de guias, que trilharam o mesmo caminho que agora trilhamos, e que descem das altitudes felizes para nos infundir ânimo e nos aconselhar.

  Que nós possamos subir cada vez mais! E cada vez mais rápidos! E cada vez mais confiantes!

  Não nos apavoremos com a vertigem. Uma vez que subimos um nível, não cairemos novamente no declive tenebroso dos antigos erros ou nas garras das violentas feras.

  O espírito não retrocede. No máximo, permanece imóvel por vontade própria, até que, no futuro, também pela própria vontade, volte a progredir, continue a percorrer a senda da benevolência e do conhecimento intelectual.

  Sigamos as asas dos pássaros celestiais! Ouçamos seu pacífico, igualitário e humilde canto!

  O Sol do Amor Divino, cuja luz atravessa até a vegetação fechada da planície, nos induz a subir e nos orienta a trajetória. Seu fulgor, que jamais nos abandona, mostra-se ainda mais sublime e amoroso no ápice da Montanha do Bem.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A rua diz


O espaço urbano, com tudo o que nele se apresenta e com tudo o que dele se esconde, é a síntese da sociedade. O que se vê nos locais públicos (e o que raramente neles se encontra) diz muito sobre a qualidade de vida e sobre os preconceitos em uma região. 

O que se conclui ao visitar um lugar cujas ruas estão repletas de mendigos, de bêbados, de narcotraficantes, de crianças devotadas às drogas e à prostituição?

Que juízo fazer de uma região onde as mulheres são proibidas de frequentar praças, mercados, restaurantes, enfim, o espaço público em geral? Onde elas vivem encarceradas em suas casas? Onde não se vê uma só mulher andando nas ruas? 

É possível perceber o baixo IDH de uma cidade quando deficientes físicos e mentais não são vistos nos espaços públicos. Quando não estão nas empresas, não trabalham em lojas nem vendem remédios nas farmácias... Ainda existem pessoas com necessidades especiais condenadas a uma vida exclusivamente doméstica, lhes sendo negado o acesso aos trabalhos externos.

Da mesma maneira, o que se pensa ao perceber que, numa sociedade na qual a maioria das pessoas tem pele escura, pouquíssimos “negros”, “pardos” e afins frequentam as universidades? 

Em dado país, há mais botecos do que bibliotecas — esse não é um dado relevante, que ajuda a medir o desenvolvimento dessa nação?

A escassez de certos fatores e a abundância de outros dentro do espaço público têm muito a dizer sobre a sociedade.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Não aglutinados


Meninos descalços jogam bola em meio à poeira. Com pedrinhas, criam as traves. O esgoto descoberto lhes serve de linha lateral. O áspero asfalto, de gramado. A cidade onde vivem supera duas centenas de milhares de habitantes. Mas o bairro é periférico. Eles não esperam receber do secretário de esportes uma quadra coberta ou um verdadeiro campo de futebol. Bem que gostariam de ter um espaço designado exclusivamente para o esporte, com balizas branquinhas, cujas redes estufariam após marcarem gols. Mas, não tendo tal espaço, os meninos ainda usam pedrinhas. Ainda jogam no abrasante asfalto, que dividem com carros, ônibus, motos, carroças, bicicletas...
         Não é incomum o fato de que esses meninos nada esperam do secretário municipal de esporte. Na verdade, mesmo as pessoas de classes econômicas mais abastadas não contam com o trabalho dele.
         Meninos, jovens e adultos frequentam academias, clubes esportivos, aulas de natação ou de dança particulares se tiverem recursos financeiros para isso. A quem não os tem, só resta improvisar.
         É assim que funciona. Por essa razão, as classes “médias” e “altas” não costumam protestar em favor de obras públicas que promovam o esporte. Quando elas precisam de quadras de futsal, academia, áreas de lazer, elas pagam por isso.
         Pagam por algo que deveria ser gratuito, algo que o governo deveria dar à sociedade. Não é esse um dos direitos dos cidadãos?
         Durante a História do Brasil, o poder público não se mostrou um elemento aglutinante da sociedade, algo que juntasse pessoas de diferentes “classes sociais” na missão de planejar os espaços públicos, resgatar cidadãos da pobreza e “fortalecer a economia”. Não existe tradição de planejamento urbano, especialmente na região periférica e em favelas. Casas são construídas sem o consentimento de autoridades. Ruas e lojas acompanham essas precárias expansões urbanas.
         Em propaganda eleitoral, quando se quer enfatizar o perfil de gestor público de um candidato, a imagem o mostra olhando um mapa e discutindo a obra com os engenheiros e equipe. Tomando tal símbolo por medida, pode-se dizer que a população não se sente parte da equipe, ela não costuma ser chamada a construir a cidade junto aos seus governantes.